Pombos se orientam com ajuda de 'bússola' no fígado que detecta o campo magnético da Terra, diz estudo

  • 04/06/2026
(Foto: Reprodução)
Pombos se orientam com ajuda de 'bússola' no fígado que detecta o campo magnético da Terra Adobe Stock Faça chuva ou faça sol, seja dia ou noite, pombos treinados sempre encontram o caminho de volta para casa – mesmo quando são soltos a uma distância de quase mil quilômetros. É uma habilidade que foi útil aos humanos por muito tempo. E há cerca de um século, a ciência sabe que essa façanha tem a ver com a capacidade dessas aves de perceber o campo magnético. Mas como isso acontecia exatamente ainda era um mistério. Um novo estudo, publicado na revista Science por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Bonn e do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, revela que uma parte central do segredo da orientação por campos magnéticos pode estar no fígado das aves. Conhecidas como macrófagos, essas células imunológicas do fígado decompõem os glóbulos vermelhos envelhecidos e, como parte desse processo, acumulam ferro, o que lhes confere propriedades quânticas que permitem detectar o magnetismo terrestre, guiando-as durante o voo como uma espécie de bússola interna. Os pesquisadores demonstraram que, quando essas células imunológicas do fígado estão comprometidas, os pombos tinham dificuldade para voltar para casa. Empresa russa anuncia ‘biodrones’ com pombos guiados por chip cerebral "Foi uma grande surpresa constatarmos que essas células imunológicas atuam como sensores de campos magnéticos. Nossos resultados revelam um mecanismo até agora desconhecido para a percepção magnética nos animais", afirma um dos autores, Christian Kurts, diretor do Instituto de Medicina Molecular e Imunologia do Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha. Teorias divergentes Os cientistas sabem há décadas que aves migratórias e pombos-correios se orientam em parte pelo campo magnético da Terra, mas a forma exata como o percebem ainda era um mistério. Teorias divergentes sugeriam que as aves poderiam ver os campos magnéticos por meio de moléculas sensíveis à luz nos olhos ou detectá-los por meio de partículas magnéticas no bico, mas nenhuma delas havia apresentado evidências convincentes. Para encontrar as células magnéticas nos pombos, os autores do estudo da Science utilizaram duas técnicas: uma de "magnetometria de amostra vibrante" e outra de "separação de células magnéticas". Com elas, examinaram os órgãos nos quais suspeitavam haver capacidade de detecção magnética: os olhos, o bico e o cérebro. Além disso, decidiram examinar também o fígado e o baço, já que os dois decompõem os glóbulos vermelhos e, portanto, armazenam muito ferro no organismo. De fato, entre todos os tecidos analisados, o fígado apresentou a maior concentração de ferro, confirmando a hipótese dos pesquisadores de que o órgão tinha a resposta magnética mais forte. "O ferro se cristaliza em nanopartículas de óxido, o que torna as células reativas aos campos magnéticos", explica um dos autores, Ulf Wiedwald, pesquisador da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha. Por que tanta gente odeia pombos? Como a "bússola" funciona na prática Uma análise mais detalhada identificou os macrófagos do fígado como as células responsáveis pelo mecanismo de orientação das pombas. A equipe de ornitólogos realizou experimentos com aves treinadas para retornar de distâncias superiores a 20 quilômetros até seu pombal, a fim de verificar se essas células são determinantes na orientação das aves. Os pesquisadores observaram que pombos com os macrófagos removidos perderam completamente o sentido de orientação em dias nublados, quando o sol estava encoberto. No entanto, quando o sol estava visível, esses pombos conseguiam se orientar um pouco melhor para voltar para casa, provavelmente utilizando sinais solares, indicam os autores. Quanto ao processo de comunicação com o cérebro, os cientistas constataram que os macrófagos ricos em ferro estão localizados próximos às fibras nervosas, o que pode explicar como a informação magnética chega ao cérebro. "Essas descobertas fornecem a primeira evidência científica concreta de como o campo magnético da Terra pode ser percebido dentro do corpo e transmitido ao cérebro para orientar o movimento", afirma Clivia Lisowski, também autora do estudo e pesquisadora do Hospital Universitário de Bonn. Os autores destacam que, além das aves, esses achados podem ter implicações para animais como tubarões, que se orientam sem necessidade de luz. "É possível que outros animais, e talvez até os seres humanos, respondam aos campos magnéticos de maneiras que ainda não compreendemos", pontua Lisowski. Habilidades dos pombos-correios são exploradas há milênios Não está claro quando ou como tudo começou, mas os humanos utilizam as habilidades de orientação dos pombos desde a Antiguidade. As aves e suas capacidades de navegação aparecem em diversas culturas antigas, seja na história da Arca de Noé ou na mitologia grega, onde eram retratadas como mensageiras divinas que ligavam o céu à terra. Os gregos antigos usavam pombos para transmitir notícias de vencedores olímpicos e de vitórias em batalhas. Os romanos utilizaram uma rede de pombos para acelerar a comunicação em seu vasto império militar. Mesmo em períodos mais modernos, quando a tecnologia começou a tomar seus postos, a utilidade dos pombos perdurou. Eles ajudaram a criar a agência de notícias Reuters. Em 1850, Julius Reuter, na Bélgica, utilizou pombos para transportar notícias e preços de ações entre Bruxelas e Aachen, na Alemanha, pois esse ainda era o meio mais rápido disponível. Os pombos levavam mensagens da linha de frente até os postos de comando na Primeira Guerra Mundial e eram considerados alvos legítimos para atiradores de elite. Na Segunda Guerra Mundial, a subseção pouco conhecida MI14(d), da inteligência militar britânica, conduziu a Operação Columba, nomeada a partir do nome científico dessas aves. Mais de 16 mil pombos, anteriormente usados por entusiastas de esportes amadores, foram lançados de paraquedas em recipientes sobre a França ocupada e outros países próximos. Os moradores eram incentivados a preencher um questionário que acompanhava o envio, com informações sobre a força e os movimentos das tropas alemãs, além de outros dados sobre a região. Em seguida, poderiam soltar a ave para levar as informações de volta à Grã-Bretanha. A operação reuniu dados úteis sobre locais de guarnições alemãs, abrigos de submarinos e defesas costeiras contra invasões, entre outros aspectos.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/06/04/pombas-se-orientam-com-ajuda-de-bussola-que-possuem-no-figado.ghtml


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